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À Bella Jozef

Falar de Bella Jozef seria fácil, se considerarmos seu vasto currículo.  Porém, Bella Jozef, foi uma grande amiga. E então, falar da amiga Bella Jozef torna-se difícil, porque envolve emoção, e a emoção

coloca uma montanha entre o peito e os lábios - como magistralmente descreveu Shakespeare em sua peça ‘Julius Cesar’. É esta montanha que tentarei escalar para lembrar a amiga.

Bella Jozef foi minha professora no início dos anos 1970 quando eu, aluna de Português-Inglês na UFRJ, me inscrevi no curso da já então conceituada mestra. Como muitos outros discentes, apaixonei-me pelo seu jeito macio de falar e pela autoridade espontânea que emanava de suas explanações.

Após a graduação, voltei à UFRJ para Especialização em Literatura Inglesa, e, encontrei muitas vezes a professora Bella Jozef, que sempre me oferecia conversas ilustrativas. Então, num curso ministrado por Cyro dos Anjos (o Imortal da ABL ministrava uma Oficina Literária) surgiu a chance de publicar os ensaios que eu escrevia para suas aulas. Faltava-me um título instigante e decidi ligar para a professora Bella. Após explicar-lhe o que precisava, ela pensou uns segundos e respondeu com sua voz mansa: - O que você acha deste? E me ofereceu o título perfeito, que coroou a publicação de meu primeiro ensaio no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais.

Bella Jozef não impunha seu saber. Com delicadeza, perguntou ‘o que eu achava’ da idéia que lhe viera à mente em segundos. Eu achara maravilhoso – tanto o título quanto a ex-professora, já transformada na amiga que honraria, algumas vezes, os encontros de escritores e professores em minha casa, onde a conversa inteligente dos convidados alimentava-me o espírito.

Alguns anos mais tarde, eu cursava o Mestrado na UFRJ, e mais uma vez meu destino acadêmico se cruzaria com o da professora Bella, quando anunciei o tema de minha dissertação. Os professores de Literatura Inglesa me induziam a escrever sobre poetas românticos, porém eu queria pesquisar personagens judeus na literatura inglesa, e sobreveio novo impasse.

Procurei, sem pestanejar, a professora Bella Jozef, e dela, de novo, veio a solução. - Por que não tenta o professor Nachman Falbel, da USP? Penso que ele a orientaria sem problemas. Ela acertara, pois assim foi.

A Editora Civilização Brasileira publicou minha dissertação e Bella Jozef escreveu a orelha do livro, cumulando meu trabalho de elogios. Mais uma vez estava eu em débito com a mestre e amiga.

Escrever foi sempre uma paixão. Participei de concursos para testar meus textos, inclusive na Hebraica-Rio, até que, 3 vitórias consecutivas após, Bella Jozef me convocou para participar do Júri, o que me inviabilizava como concorrente, porém mais me aproximava da professora e amiga que eu tanto admirava.

Uma noite, há uns cinco anos, o telefone tocou em minha casa. Era a professora Bella. Sem rodeios, avisava que indicara meu nome para membro do Pen Clube do Brasil. Argumentei que não me sentia apta a participar de grupo tão erudito. Ela não me ouviu. Acatei sua determinação, certa de que sua boa vontade não resultaria em nada além. Mas ela me ligou semanas mais tarde e comunicou que eu fora aceita no seleto clube. E me fez um discurso belíssimo de recepção, com palavras elogiosas e plenas de carinho. Eu tentei agradecer a homenagem - logo eu, que tenho - como Calpúrnia, a personagem em Julius Cesar, a montanha entre o peito e os lábios. Mais uma dívida para com a amiga.

No ano passado, a Secretaria de Cultura do Estado me convidou para fazer parte da CAP, comissão de aprovação de projetos culturais. E aconteceu de minha suplente ficar impossibilitada de assumir o cargo. Eu, desolada, vi-me sem saída, em mais um impasse e em busca de solução. Meio sem jeito, ou talvez levada pelo costume, telefonei para Bella Jozef. Quis trocar de posição e ser eu a sua suplente, mas ela não acatou minha sugestão. Apresentei suas credenciais de suplente à CAP, motivando surpresa; Bella Jozef é mesmo sua suplente? Perguntaram, olhando-me com novo interesse.

Bella ainda teve a bondade de me acompanhar a uma reunião em que lá estavam Heloísa Lustosa, ex-diretora do MAM, entre outros membros. Ganhamos todos alguns pontos com sua presença.

Entretanto, pouco tempo depois a perderíamos. Como diria o poema de Egard Allan Poe, nunca mais encontros inteligentes, nunca mais os cinemas seguidos da conversa instigante, nunca mais seus conselhos sábios, nunca mais...

Eu devo muito à Bella Jozef. Lições de vida, de generosidade intelectual, o incentivo constante de uma grande personalidade, um anjo de cultura que me oferecia tudo sem nada almejar em troca. Fará falta a todos nós, a mim em especial.

Mas, como disse João Guimarães Rosa, ‘tudo que lembro, tenho’, ou seja, permanece no homem tudo que ele é capaz de lembrar. Bella Jozef permanecerá em seus filhos, netos e marido, família que ela amava com paixão; permanecerá nos amigos, que dela recebíamos o melhor; permanecerá na comunidade judaica, que ela tanto honrou com sua dignidade e capacidade; e permanecerá na sociedade maior, para a qual contribuiu enormemente nos campos da Educação e da Cultura; todos sempre a teremos, pois é um nome a ser lembrado através dos tempos.

Parafraseando o poeta Manuel Bandeira, aos 6 de julho de 1944: Bella, bella, bella, ritornelo, Seja em tua vida, espero, Belo, belo, belo, Tenho tudo quanto quero! Obrigada, Bella Jozef, por me ter incluído entre suas amigas. Era tudo que eu queria.

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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