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Apenas uma mulher

Não se contestasse, Branca era uma mulher bonita. Bonita e muito vistosa, os cabelos grossos e fartos caindo-lhe em ondas largas sobre os ombros. Os traços eram fortes, cheios de personalidade e os olhos, oblíquos e grandes, tinham a cor

do mel,  enfeitados por pestanas felinas.

Quanto à pele, conservava a maciez da juventude, embora a mulher já beirasse os trinta. O porte de deusa, ela o guardava da solista de coral que fora, onde exercitara sua voz grave de contralto, sensual e feiticeira. Acrescente-se que era simpática no trato e elegante no falar - absolutamente encantadora. Assim era Branca.

Pobre Branca.... Pobre mulher. Atada a um marido de maus bofes, sempre pronto a destratá-la, ainda que houvesse testemunhas. Femininas, claro, que, para ele, mulher só valia pela utilidade que dela se pudesse fazer, na cozinha e na cama. E olhe lá!  Pois que vissem como Branca tinha pose, mas era tratada por ele como seu dono, o que era, e pronto. Os homens, bem, os homens eram sempre possíveis contatos comerciais, e mereciam uma imagem simpática, mas controlada. Perto deles, dirigia-se a ela de maneira forte mas gentil, como convinha ao se lidar com seres inferiores, meio incapazes, como bem lembrara a lei, o que jamais deveria ter sido  modificado, acreditava. A barriga do consorte de Branca demonstrava, desde há muito, o gosto apaixonado pela cerveja, e seus dentes, miseravelmente polidos, não iam muito além da vitrine. Em suas costumeiras noites insones, a mulher se perguntava por que resolvera desposar aquela figura de poucos ,molares e muita barriga. O marido era um lixo, um lixo barrigudo, e ela, em dúvida se por piedade, nada fazia para dele livrar-se.

Em reuniões sociais, o homem gostava de fingir, dentro dos limites já esclarecidos, que viviam, na visão masculina, num mar de rosas. Arrepiada, via-se Branca a ser enlaçada por aquela cintura gigantesca. Sorria polidamente, pouco à vontade com a presença incômoda, enquanto ele, extrovertido, beijava as mãos femininas um tanto demorado demais, galanteio ao qual algumas senhoras respondiam puxando os dedos, quase que involuntariamente, diante daquele bafejo úmido em sua pele. Outras, mais afoitas, deixavam escapar um leve ar de espanto, ou iam ainda mais longe, descobrindo, rapidamente, um perfumado lencinho de renda, e passando-o sobre o local atingido. 

Pobre Branca. Tudo aguentava com serenidade, por trás da figura majestosa que possuía. Uma princesa sitiada por um sapo. Nesse pouco convidativo contexto, a casa, que mal conhecia limpeza, ficava bastante relegada. Além do que, o casal era servido por uma empregada já muito antiga, herdada da sogra de nossa amiga, recebida com muitos direitos adquiridos e ainda mais obrigações esquecidas. O fato é que os afazeres domésticos ficavam bastante sacrificados. Quanto à despensa, encontrava-se totalmente a encargo do marido, que evitava, deste modo, desperdiçar dinheiro, como faziam conhecidos seus, que mantinham conta bancária para a mulher, com mesada para compras da casa. Mulher sua é que não faria pé de meia às suas custas. Por isso ele se ocupava do mercado, do açougue e da feira. Como, quando e se quisesse.

Poucos amigos frequentavam a casa, e assim, pensava ele, os problemas domésticos eram quase invisíveis. Talvez aí a razão de  especulações, pura maldade de uma sociedade invejosa. Um homem de bem precisava casar-se, pois a prole tinha de ser legitimada. Nem para gerar a mulher lhe fora útil! E ainda ousara sugerir que ele fizesse exames. Imagine!

Nesse contexto, e apenas por terapia, sem muitas habilitações específicas, Branca conseguira um emprego. É que a mulher tinha muitas horas de puro ócio, e incentivou o marido na decisão de que era melhor ajudar a complementar o orçamento. Não que fosse necessário, dissera ele, mas também não se jogaria fora uma  contribuição mais do que justa. E num ponto fez questão! Se fosse trabalhar, teria de ser em local possível de ser controlado, que mulher não existia para ser alvo de confiança.

Assim, no escritório de um grande amigo, advogado de renome nacional, Branca teve a chance de viver sua primeira experiência profissional.  Gentil,  foi com um ramo de flores que o chefe recebeu-a em seu primeiro dia de trabalho. Paciente, quando teve de apontar-lhe as falhas, o fez com o mais generoso dos sorrisos e prontificou-se a auxiliá-la a superar todas elas, no devido tempo. Não se  apressasse, que o mundo ficara pronto em 7 dias. Precisariam de milênios para aperfeiçoá-lo.

Em poucos meses, Branca tornou-se indispensável ao seu chefe, se é que podia assim ser designado quem só oferecia amizade e solidariedade. Compreensivo, permitia que se atrasasse quando necessário, desde que compensasse na saída, ficando até mais tarde. Um arranjo perfeito, com salário generoso, totalmente entregue ao marido, que dele fazia questão, porque mulher, com dinheiro na mão, era sinônimo de confusão.

Pouco tempo depois, recebeu de outro amigo seguro saúde da melhor categoria, incluindo hospital, para qualquer eventualidade. Em seguida, mais um querido conhecido requisitou os serviços de Branca para organizar seu consultório, oferecendo pagamento régio, o que muito alegrou o marido. Seria coisa rápida, não mais do que uma vez por semana, e em horário que a mulher designasse. Afinal, Branca revelava-se boa administradora. Para algo haveria de servir, até que enfim, comentou o homem.

Sem qualquer hipocrisia, era preciso admitir que, se Branca não se decidia pelo divórcio, tampouco se entusiasmava pelo companheiro com que a juventude e a lei a haviam presenteado. Entretanto, tudo melhorou, pois com o trabalho, a mulher se tornara fértil, e gerara duas crianças lindas, cumuladas de carinhos e presentes por muitos padrinhos.

Finalmente, o homem podia gabar-se de ter constituído uma família. Os amigos, agora, vinham visitá-los,  a casa passara a ter vida. Mudaram-se para um apartamento muito bem localizado, decorado com esmero, pois Branca tinha salário invejável, logicamente entregue nas mãos de seu zeloso companheiro. 

A vida correu, feliz, até que os filhos entrassem na adolescência. A menina começou a competir com a mãe, e perdia, em conseqüência trazendo problemas em casa. O garoto, mal completou dezesseis anos, enroscou-se com uma sirigaita francesa que conhecera na praia e decidiu que iria para a Europa com a zinha.

Mais do que rápido, e porque o pai era um omisso, Branca pediu conselhos aos amigos, que se propuseram a ajudar no problema. Com o consentimento do marido de Branca, é claro, que não passariam por cima da autoridade paterna.

Assim, a mocinha foi enviada para um colégio na Suíça e o menino para outro, em Paris. Se a paixão pela parisiense persistisse,  o tempo se encarregaria de desgastá-lo, pois ele ficaria por lá durante vários anos. Branca concordara com a solução, sem dúvida perfeita para corrigir adolescentes irrequietos. Sentia  um certo alívio com as crianças fora de casa, mais liberdade, mais nem sabia o que. Filhos!!

Diante de tantas atribulações, Branca, ainda uma  belíssima mulher aos 47 anos, achava que merecia gozar o presente em todas as nuances possíveis. Vestia-se, pois, com o máximo de elegância e griffes, desesperando o marido com as infinitas contas que lhe apresentava, já que ele ainda mantinha o caixa da família. Algumas vezes, apenas por capricho, mostrava ao consorte os presentes lindos que recebia, liberalidades dos amigos para quem cuidava da organização de escritórios e consultórios.

Nada a ver com seu salário, que recebia na íntegra. Apesar do casamento acomodado, volta e meia começaram a surgir maledicências, comentários de que a teriam visto em um carro assim, assado, tudo bobagem que jamais ficara provado. A sociedade ia de mal a pior, sem qualquer respeito pelo ser humano. Ousaram enviar-lhe carta anônima, ameaçando contar ao marido que fora vista saindo de um edifício tal, em dia tal, pura mentira. Ah, a maldade humana, onde iria parar?

A única resposta que lhe ocorria era sorrir e seguir sua vida, indiferente a tantos murmúrios absurdos. Estava certa de que seus filhos não mereciam que descesse de nível diante de tantas mentiras. Por eles, e só por eles, valia o sacrifício de conviver com o cada vez  mais repugnante  marido, pelo qual, e apenas por obrigação, algumas vezes se permitia usar.

Pobre Branca. Pelo menos, o marido mantinha-se alheio às invenções sobre ela. Quanto aos filhos, estavam longe, protegidos, e só poderiam apoiá-la, se e quando retornassem. Satisfação, só as dava ao analista, que a atendia por pura amizade. Tinha mesmo de agradecer a Deus a presença de tantos amigos em sua vida, sem os quais nem sabe como enfrentaria cada dia.

Ao completarem bodas de prata, Branca, sempre linda e misteriosa, em seus 52 anos, recebeu do marido dois presentes: uma surra pela manhã e uma esplêndida recepção à noite. Nada disse quanto à agressividade do marido, ele que jamais chegara àquele ponto. Quanto à festa, elogiou-a em cada mínimo detalhe, um mimo que os amigos ofereceram ao casal, em demonstração da maior generosidade e carinho. Foram tantas as manifestações de amizade, tão especiais,  que emocionaram até às lágrimas o esposo da bela e prestativa Branca. E viveram (in)felizes por quase todo o sempre.

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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