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entrevista nosso jornal

Escritora com vários textos premiados, Miriam Halfim, está com duas peças em cartaz no Rio de Janeiro e uma terceira que será lançada em dezembro. Tendo o judaísmo como tema central de seus trabalhos, Miriam se considera uma lutadora obstinada atenta a todas as oportunidades. Para conhecer mehor o trabalho dessa escritora, conversamos com Miriam Halfim na entrevista a seguir:

 

 O judaísmo é uma fonte de inspiração para o seu trabalho como escritora? 
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Escrever sobre judaísmo surgiu naturalmente. Pesquisando a Inquisição no Brasil, descobri a força dos cristãos-novos em Pernambuco desde o descobrimento do Brasil. Fernão de Noronha recebeu a ilha que leva o seu nome em 1503, e não parou de trazer judeus para trabalhar na colônia. Com as leituras múltiplas sobre o assunto, surgiu Senhora de Engenho – Entre a Cruz e a Torah (sobre Branca Dias), que foi premiado no Recife; e também, Ana de Ferro, que trata de uma famosa prostituta que viveu em Recife e foi contemporânea de Nassau. Novamente um texto premiado no Recife. No mesmo ano de 2002 escrevi Bento Teixeira, bardo, judeu de Olinda, igualmente premiado em Pernambuco (entre outras coisas, havia uma biografia do poeta, e seu autor me permitiu expressamente usar os dados biográficos ali constantes). João Bethencourt, meu professor de dramaturgia e amigo até seu falecimento em 2006, me aconselhou a enxugar o texto e então, em 2007 surgiu "O Língua-Solta", que foi lido na Casa da Gávea e depois na Biblioteca Bialik. Agora, no monólogo em cartaz no Centro Cultural de Justiça Federal, um ator – no caso o sensível e brilhante Isaac Bernat - faz quatro personagens para contar a história de Bento Teixeira. Escrever sobre Bento Teixeira, Branca Dias, Antonio José da Silva, é uma maneira de homenagear os judeus que contribuíram, cada um a sua maneira, para a história do Brasil. E falando sobre eles, contribuir para o engrandecimento de nossa cultura.

.O judaísmo é também uma fonte de humor?
-O humor judaico está em quase todos meus trabalhos. Aprendi que uma peça precisa de humor, sempre e onde couber. Tenho, além dos textos mencionados acima, uma peça sobre o rabino Akiva, uma sobre ortodoxia e cabala; uma outra na qual Moisés aparece para um negro que busca ajuda celestial; uma sobre Freud; uma outra sobre Maimônides, bem recente; algumas sobre costumes judaicos; em suma, muitos assuntos me interessam porque o ser humano me interessa. E a condição judia - por certo - é um dos temas que me apaixona.

.Entre os escritores judeus, você tem algum preferido o qual se identifica mais?
-Entre os escritores da atualidade, adoro ler Moacyr Scliar. Seu livro "A Mulher que escreveu a Bíblia" nos faz rir em vários momentos. Aliás, leio tudo que ele escreve. Amós Oz também é imprescindível. E tem o Phillip Roth, o Joseph Roth, Isaac Bashevis Singer, Elie Wiesel; e os clássicos, sem dúvida. Leio tudo ou quase tudo que é publicado sobre judeus e judaísmo. Nunca pareço saber o suficiente sobre nossa gente. Deve ter a ver com o fato de ser parte do Povo do Livro.

.A cultura judaica sempre foi muito rica na área literária. Atualmente quem você destacaria na linha do humor?
-Scliar escreve com humor, Bashevis Singer também. O judeu é um otimista por natureza, e um otimista tira humor de qualquer situação. Woody Allen é um gênio do humor, por exemplo. Seus filmes são sempre inteligentes e engraçados. Como o povo judeu sobreviveu na Diáspora graças às idéias e ao estudo, há muitos outros exemplos. Alguns, já mencionei, mas a lista é bem maior.

.Por que o humor judaico difere dos textos humor de uma forma geral? Nós judeus temos mais tipos caricaturais para se explorar, como a ídishe mame, por exemplo?
-O humor é cultural. Cada cultura ri de suas próprias mazelas. Por isso, às vezes não achamos graça de uma piada que soaria fantástica para um americano, por exemplo. A ídishe mame é o máximo do exagero, e no exagero está o humor. É como a piada em que a mama italiana diz para o filho: come ou eu te mato. Mas a ídishe mame vai além e diz: "come ou eu me mato" .

.Fale sobre a peça "Receita Infalível. Do que se trata?
-"Receita Infalível", minha nova peça, trata de moral dupla, ou falta de moral. Maria Helena Kühner, respeitada mulher de teatro, me convidou para uma parceria e eu aceitei. Assim, no texto dela, um sujeito metido sabichão pensa ter uma receita para conquistar mulheres. No meu, uma mulher judia é vítima das traições do marido, influenciado pelo tal sabichão, e dá o troco, mostrando o que aprendeu com os dois. Estréia quarta-feira, dia 5 de agosto, às 21 horas, no teatro Ipanema.

.Você está lançando três peças, no mesmo ano. O Língua Solta (julho), a Receita Infalivél (agosto) e Ecos da Inquisição (dezembro). Num país onde conseguir um patrocínio cultural é bastante dif[icil, você pode se considerar uma privilegiada?

-"O Língua – Solta" é minha quinta peça. Foi selecionado pelo Centro Cultural de Justiça Federal, que oferece o teatro e a parte gráfica e equipamentos. "Receita Infalível" é fruto de suor e obstinação. "Ecos da Inquisição", que tem o padre Antonio Vieira e o dramaturgo Antonio José da Silva como personagens centrais, aborda, com humor ácido, três momentos da Inquisição. No Prêmio Luso-Brasileiro Antonio José da Silva 2008, Funarte - Instituto Camões, foi uma das quatro finalistas brasileiras, entre 77 concorrentes ( o tema obrigatório era o padre Antonio Vieira). Em março de 2009, a peça ganhou patrocínio da Eletrobrás (é meu primeiro patrocínio) e será montada em dezembro, com direção do premiado diretor Moacir Chaves. Não sei se sou privilegiada, mas sou eterna lutadora e muito obstinada. Costumo dizer que a vida pode não ser um mar de rosas, mas é preciso lutar para colher e saber apreciar cada ramalhete de flores que ela nos dá. O resto é só resto.

 

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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