Volta à página principal

Mãe de pedra

lua grávida brilhava pendurada no céu morno. Farrapo olhou para os lados e decidiu: está limpo.

Assobiou e ninguém respondeu. Onde – diabos – se metera Pereba? Imaginou que o pirralho, cansado de

  Mãe de Pedra

Publicado por em 28 de outubro de 2013 | Categoria:

menino-de-rua

Aacompanhá-lo feito sombra, havia desistido daquela vida; quem sabe, obedecera à sua ordem e voltara para o barraco no subúrbio.  Melhor assim, suspirou longamente. Melhor assim: estava mais que acostumado à solidão. Acolhera até com excessiva e inesperada paciência o pivete fugido do pai bêbado e canalha, que o atacava com porradas e ainda molestava as filhas com sexo incestuoso. Mas Farrapo não podia ajudar muito mais, envolvido com seus próprios e enormes problemas.

Pai, ele mesmo nunca tivera. Nem precisara de um, repetia, tentando se imbuir de convicção. Ainda mais se fosse bebum, feito o de Pereba. A mãe, ela sim, fizera falta, – e como fizera – mas, finalmente, finalmente a havia encontrado. Estava tudo nos eixos, então.

Sempre ouvira boatos de que fora jogado no lixo, mas sabia, em seu coração, que era mentira. Tinha de ser. Que outra resposta havia para seu pequeno milagre? Não a encontrara depois de uma busca ensandecida, quando tudo parecia perdido? Afinal, reunia-se com sua mãe. E se convenceu de que era bom, bom demais que o danado do Pereba tivesse desaparecido. Ao menos não sentiria ciúme, não precisaria dividir sua tão importante, maravilhosa e perfeita mãe.

No canto da praça vazia, ali estava ela. Suspirou diante da mulher grande, uma forte figura feminina sentada, o colo farto, os dois braços abertos, as palmas das mãos prontas para um abraço. E o rosto: como era suave, de olhar eternamente doce.

Umas coisas estranhas estavam escritas aos pés da mulher, mas Farrapo não sabia ler. E, pensando bem, que importava? Por algum tempo a chamaria apenas “mãe”, até que ela se decidisse a revelar seu nome, e por que se perdera no mundo; e então, então viria o aguardado momento em que a mãe repetiria, entre mil lágrimas, como estava feliz por encontrá-lo. Beijou as palmas das mãos maternas, acomodou-se em seu regaço e adormeceu, nos lábios um sorriso de menino após um sonolento: boa-noite, mãe.

Pereba viu e ouviu o amigo se derretendo de amores diante de uma estátua. Coçou a cabeça e, então, num estalo, compreendeu. Porra, que piração! Mas a mãe do Farrapo é de pedra! Que piração mais doida, repetiu.

Enfiou a mão no bolso e apalpou o dinheiro que o outro havia roubado e lhe entregara – todinho -, arrancando sua promessa de que voltaria para casa. Mas não pudera cumprir o prometido. Em vez de correr para junto do pai bebum, lembrou mais do que suportou, e deu meia volta para o lado de Farrapo. Era verdade, teve uma vez, ainda pequeno, soltando pipa com o velho. Fora legal, muito legal, admitiu. Também era verdade que nunca mais soltaram pipa juntos, mas aquela vez valera; se valera. Porém, não o suficiente para vencer a brutalidade de todos os outros dias.

Farrapo chorara feito bebê ouvindo sobre a felicidade de seu dia de pipa com o pai. E aí, só para contar vantagem, aumentou e enfeitou a história: mentiu que foram várias vezes, todos os domingos, todos os sábados e domingos, todos os sábados e domingos e mais feriados, o dia que bem quisesse soltar pipa. Farrapo se desmanchava em lágrimas enquanto ouvia suas lorotas. Talvez o choro comovido tenha influenciado sua decisão de voltar. Ou talvez não sentisse firmeza na voz que lhe ordenara sair das ruas. Ou, quem sabe, temera sua impotência diante das surras e do estupro das irmãs.

Ao ver o carinha se dirigindo para aquela praça deserta, um instinto lhe ordenou seguir atrás, bem quieto. E então, naquela praça de lampiões mal cuidados, diante da lua grávida escorregando do céu, presenciou a cena mais estranha e irreal de sua curta vida. Descobrira a mãe que Farrapo tanto se vangloriava de haver encontrado. A mãe especial, que chorara e cobrira de beijos e lágrimas o bebê roubado de seu colo.  Roubado do colo, pois sim. Jogado na lixeira, num mísero e sujo saco de lixo. Que viagem do cara, murmurou, esfregando os olhos úmidos.

Pegara-o com a boca na botija. Que mãe que sabia letras, que nada. Que mãe que ia levá-lo para casa, que nada. A mãe era de pedra, pedra pura, não ia sair nunca daquele lugar. Que viagem mais louca a do amigo, repetiu várias vezes, que viagem mais louca.

Teve dó, vontade louca de correr e abraçar o amigo; mas um feixe de luz inundou a noite e o obrigou a se esconder, o rosto já assustado. O clarão atingiu Farrapo, que abriu e esfregou os olhos, esgueirando-se para trás da estátua. Em seguida, uma voz fria ordenou: Cai fora! Não sabe que essa área é militar?  É proibido dormir aqui!

Farrapo fechou a cara diante da ordem, mas logo se acalmou e balbuciou, bem baixinho: Ele não sabe de nada, né não, mãe? É nosso segredo. Daqui a pouco ele cansa, se manda e a gente fica bem juntinho, de novo.

Mas o homem não se cansou, muito menos se mandou. Em vez disso, tirou um apito do bolso e chamou um guarda. Em seu esconderijo, Pereba encolheu-se de medo. Farrapo, ao contrário, soltou um palavrão; momento seguinte, bateu na boca e desculpou-se com a mãe pela má palavra.

Que merda, murmurou, chateado por se ver descoberto. Desculpou-se de novo com a figura materna. Decerto precisariam ficar sem se ver por algum tempo. Logo agora que a descobrira, logo agora que a encontrara! Sua cabeça martelava, atormentada pela hipótese de uma nova separação. Malditos, berrou, descontrolado: Malditos! Malditos! Deixa eu em paz!

O guarda chegou a tempo de ouvi-lo. Ao lado do vigia, pôs-se em alerta, desconfiado de que lidavam com meliante perigoso. A cidade andava em polvorosa, um horror cada vez pior, nunca sabiam que tipos de bandido enfrentariam: um perigo ocupar posição como a deles nesses dias sem lei. Os homens pensaram em pedir reforço. O vigia apontou o revólver do guarda e perguntou se estava carregado: o sorriso do policial não deixou dúvidas. Pereba se mijou de medo e fez barulho, na tentativa de sacudir a calça molhada. O guarda percebeu o movimento nos arbustos e agarrou o pivete, cobrindo-lhe a boca. Chutes, mordidas e gritos abafados encheram o ar.

Foi a vez de Farrapo se assustar. Esgueirou-se para ver o que acontecia e soltou outro palavrão ao descobrir o amigo que imaginara de volta para casa. Já não se desculpou com a mãe.

Enquanto o vigia mantinha o facho de luz na direção de Farrapo, o guarda segurava Pereba com gesto firme. E ouvindo o desespero do suposto bandido clamando pelo colega prisioneiro, deduziu que eram conhecidos. Gritou, tentando parecer calmo: pegamos seu amigo. Vem em paz, não vamos fazer nada com vocês. Mas vocês têm que deixar o parque, é proibido permanecer na área depois das dez da noite.

Pereba tentou berrar que era mentira, quis avisar que o “gorila” estava armado, mas sua boca foi apertada com mais violência. Farrapo viu o amigo se debatendo, seu coração temeu e ele decidiu se entregar em paz. Ergueu os braços, esquecido de que a mão direita segurava um graveto em L, usado feito revólver nos pequenos golpes praticados.

Na confusão que se seguiu, uma luz forte o cegou, Pereba mordeu a mão que o prendia, soltando-se com um safanão e o guarda, assustado, disparou. Farrapo agarrou-se à estátua, balbuciou “mãe” ainda uma vez e escorregou ao chão. Pereba já corria em sua direção, seguido pelo vigia e pelo guarda, todos bastante confusos.  Mais confusos ficaram ao se aproximarem e descobrirem o graveto na mão do ferido. Farrapo gemeu e implorou: Tira minha cabeça do chão, tira ela do chão.

O guarda se ofereceu para ajudar, mas uma voz débil recusou: quero o outro, o que não tem berro na cintura. O vigia passou as mãos pelos poucos fios brancos da cabeça, sorriu sem jeito e se pôs de joelhos para amparar a cabeça do pivete. O movimento provocou uma contorção de dor no rosto de Farrapo, que logo, porém, esboçou um sorriso, um largo e triunfal sorriso.

Olhou demoradamente para a mãe, em seguida para Pereba, depois para o guarda e, finalmente, para o homem que se debruçava sobre ele. O policial, inquieto, mencionou a ambulância a caminho. Farrapo apenas sorriu e piscou um olho para o amigo que, constrangido, elogiou a beleza de sua mãe. Os homens, sem nada entender, olharam para Pereba, que apontou a figura de pedra e repetiu: minha mãe.

Os olhos do vigia passearam pela estátua, leram o nome inscrito no pedestal: Sofia, o conhecimento; e marearam. Seu abraço mudou, já incluindo emoção. Pereba elogiou o nome, mas Farrapo apenas continuou a sorrir. E Pereba chorou quando ouviu do amigo: Então, isso é que é colo de pai: doce, morno, firme. Isso é que é colo de pai! Agora tá tudo certo, balbuciou fracamente, tá tudo certo.

Farrapo olhou para o céu, que viu subitamente claro, o sol brilhando a pino, e mostrou uma pipa de seu time voando bem alto. Os outros engoliram em seco e concordaram com a fantasia. E, naquele momento, Farrapo, num esforço arrancado da alma, pegou a mão do homem que o sustentava piedosamente e orientou seus movimentos nos gestos ansiados desde sempre. Uma força renovada o envolveu e ele, feliz como nunca, gritou a plenos pulmões: Olha eu, Pereba! Olha eu soltando pipa com meu pai!

Mais não disse. Morreu nos braços de um pai emprestado, ao lado de sua mãe de pedra, no seio da única família que jamais conheceu.

Publicado em

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

Livros Publicados

Galeria de imagens