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Mesa redonda no Museu Judaico

Cláudio Murilo Leal, presidente do Pen Clube, Luiz Paulo Horta, jornalista e crítico de música, Miriam Halfim, escritora e Paulo Roberto Pereira, autor de “Antonio josé da Silva, o Judeu, Quatro Peças”, debateram a Inquisição após o lançamento do livro.

Inquisição

Perseguição aos judeus começa no século IV da era cristã, com a oficialização da pecha de deicídio.

Daí para frente, (já se estava na Diáspora, Massada acontecera no ano 70 e a revolta de Bar Kochba em 135) há expulsões em massa, massacres indiscriminados, ódio enraizado e fundamentado no alegado assassinato de Deus (Cristo) pelos judeus.

Nas Cruzadas, o perdão dado a bandidos que fossem libertar a terra santa dos invasores era ainda mais abonado se incluísse massacre de judeus pelo caminho.

Na Inquisição, que começa oficialmente em 1480, com edito do papa Sisto IV, a caça aos cristãos-novos que supostamente se convertiam apenas para manter seu poder junto às classes dominantes (eram médicos de reis, ministros, conselheiros da nobreza, etc) começa, e só termina em 1821. São 341 anos de perseguição e morte sem trégua.

No Brasil, para onde fugiram muitos cristãos-novos expulsos de Portugal e Espanha, o braço do Santo Ofício chega em 1591, primeiro na Bahia, e em 1593 se inaugura a caça aos judeus em Pernambuco.

Aí entra Bento Teixeira. Vem para o Brasil aos 6 anos, fica órfão, é educado por jesuítas. Dono de imensa cultura, diz sua biografia que é fã de enxadrez, de vinho, tem a língua solta, argumenta com padres e com todos. Bento, o primeiro mestre escola leigo do Brasil, também o primeiro poeta do país, autor do longo poema “Prosopopéia”, que casa com Felipa Gavião, tem dois filhos, mortos ainda pequenos, termina por matar a mulher publicamente adúltera e se esconde num mosteiro, onde troca receitas com os freis e noviços e argumenta sobre a Criação do Mundo, e onde é apanhado numa armadilha, preso e depois levado pela Inquisição para os Estaus. Também de lá se vê livre, porém, condenado ao uso eterno do sambenito, doente e pobre, volta para morrer na prisão, um ano antes de ver seu poema publicado, o que aconteceria em 1601.

A peça sobre Bento Teixeira foi premiada na cidade do Recife. A versão em monólogo (conselho de meu finado mestre João Bethencourt), já foi lida na Bialik e na Casa da Gávea. Estreia em 22 de julho no CCJF, com Isaac Bernat.

Branca Dias também viveu no Recife, onde chega por volta de 1550, após sair dos Estaus em situação não muito esclarecida. Fala-se que, entre seus muitos filhos, os dois deficientes (uma acorcovada e mentecapta e o outro sem braços, que ela ensinou a ler) teriam contribuído para sua soltura. No Recife, torna-se importante aglutinadora da comunidade. Em seu engenho, Camaragibe, realizavam-se reuniões religiosas, das quais Bento Teixeira chegou a participar. Branca Dias foi mestre-escola, como Bento Teeixeira, numa época em que apenas a Igreja podia ensinar, sendo decerto a primeira mulher a exercer tal cargo no Brasil. Branca Dias foi denunciada já morta, por ex alunas. Sua filha acorcovada, já idosa, foi levada presa para Lisboa.

A peça sobre Branca Dias recebeu primeiro prêmio no Recife e foi publicada naquela cidade. No Rio de Janeiro foi lida em parte na Wizo, no lançamento do livro, e depois encenada por jovens no grupo Hillel. A peça iria inaugurar o Memorial Branca Dias e fazer parte da revigoração dos engenhos de Pernambuco, mas uma mudança na Secretaria de Cultura alterou os planos, tanto do Memorial quanto da revigoração dos engenhos para inclui-los no roteiro turístico de Pernambuco. E parou os ensaios da peça, por certo; por enquanto.

Após a saída dos holandeses do Brasil, um grupo de cristãos-novos saiu de Pernambuco para ir fundar Nova Amsterdam, hoje Nova York.

Outra peça sobre a Inquisição “Auto das Meninas Más” aborda a Primeira Visitação à Bahia e a Pernambuco e seu horror diante da imensa quantidade de sodomitas encontrados na colônia. Pior, o Visitador consegue entender a bigamia, muito comum, a feitiçaria (mulheres que faziam poções para fins vários, geralmente sexuais), e a sodomia perfeita (homem fazendo sexo com um seu igual), mas choca-se ao extremo ao se deparar com a dita sodomia imperfeita (mulheres se amando, até com instrumentos másculos). O alívio só vem com a chance de prenderem judaizantes, especialmente Bento Teixeira e João Nunes, personagem de liderança na colônia. Esta peça parece ter chocado também os que a leram, e segue em busca de seu caminho.

A Inquisição também prendeu o padre Antonio Vieira, que muito incomodava os religiosos com suas idéias de retorno dos cristãos-novos a Portugal, que via como saída para a situação de penúria a que o país fora levado pelas guerras. Vieira reconhecia e apreciava o caráter empreendedor dos cristãos-novos, argumentando que a intolerância de Portugal levara a prosperidade para países mais tolerantes. Acabou preso em 1665, depois liberado em 1668, sob a condição de não falar nem escrever contra seus pares. E deixar Portugal. Voltou ao Brasil, onde ficou até morrer.

Galileu também foi apanhado pelas garras da Inquisição, por ela condenado à prisão domiciliar em 1633, por afirmar coisas sobre o céu que apenas a Igreja julgava ter autoridade para deliberar.

Antonio José da Silva foi outra vítima da Inquisição. O Rio de Janeiro do século XVIII, rico em ouro, com uma grande comunidade, teve-a quase inteiramente varrida para as prisões de Portugal e, tempos depois, para as chamas da fogueira.

A Inquisição, que nasce, então, para perseguir os cristãos-novos que judaizavam, comprometendo os verdadeiramente conversos, terminou encontrando uma fórmula terrível e infalível: os cristãos-novos, punia por judaizar; os judeus não convertidos, aparentemente livres da perseguição, tornavam-se culpados por supostamente fingirem-se de cristãos. De todo jeito eram perseguidos.

Ao fim, Antonio José da Silva permaneceu vivo em suas peças, o padre Antonio Vieira no brilho de seus sermões e a Igreja, através da Inquisição, ganhou mancha indelével, comparável a de Lady MacBeth.

Quanto a mim, quanto mais estudo e escrevo, percebo que, a não ser que haja lugar para todos, não haverá espaço para ninguém no mundo.

 

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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