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O Equívoco

 O Equívoco, de João Uchôa Cavalcanti Netto, retrata a sociedade em preto e branco, sem retoques.

Trinta anos após sua primeira edição, segue cáustico, impiedoso, sufocante, real, atual como nunca.

Já no primeiro conto,  a lei como um jogo de palavras. O fraco sucumbe à lei útil, longe da justa. O juiz-Pilatos lava as mãos nos artigos, esconde-se neles por não enxergar além da superfície das coisas; e crucifica, frio, seu réu-Cristo.

No segundo, a agilidade do discurso,- repetida por todo o livro -, leva o leitor em turbilhão. Revela, aos trancos, a miragem sobrepujando o real, a ordem invertida.

O terceiro mostra a justiça zombando, achincalhando, orgulhosa e despótica, arrasta ao desvario a inglória busca de atenção do Judiciário. A cáustica ironia tudo resume: "Vai, confia na justiça, velha."

No seguinte, irregularidades emaranhadas ocultam autênticos culpados, indiciando "elemento neutro e sem qualquer relevância". Após "quinze volumes, o inquérito" olhos exaustos culpam "um contínuo  da alfândega e um cabo reformado". Os suspeitos hierarquicamente superiores, vítimas de precipitação do Juízo, são liberados. A justiça, jogo de interesses políticos, tem no cinismo o predomínio da narrativa.

No quinto conto, a ambigüidade vela crimes investigados. O ex-detento surge como bode expiatório perfeito na falta de um réu. Seu passado determina o rumo do processo. Sobra arbitrariedade onde existe estigma, desamparo e desespero. A verdade forjada pelos homens da lei - "minha palavra de polícia contra a de um ex-presidiário" - vira verdade.

O sexto texto tem trama onde infindáveis "remédios" da Justiça estão ao alcance dos abastados. Se decisões de Primeira e Segunda Instâncias, nas quais promotor "completamente louco", ou juiz "louco varrido", teimam em condenar réu poderoso, surge o recurso à capital, ao Ministro Plenipotenciário que "cura" o equívoco, liberando o assassino influente e punindo o desarvorado pai da vítima.  Como em "Animal Farm" (A Revolução dos Bichos), de George Orwell, a lei é igual para todos, porém mais igual para alguns privilegiados.

Desfilam, no sétimo, mazelas e paradoxos dos presídios: "confere o bolo que a amásia trouxe, cheira, sente a maconha escondida, papai, você não volta mais?". O ritmo frenético da narrativa aprisiona, aturde e instiga. "Desce as calças, Marluce, depressa, dei dinheiro ao guarda, depressa, olha a vez dos outros". Promiscuidade imposta aos homens. "No começo procuram (a porta) com jeito, por favor dá licença...a porta não vem...cadê a porta?...desespero esbofeteiam, e mais gente, mais gente, me larga...a aflição". As palavras se atropelam, espelham o desarranjo da realidade, a ansiedade carcerária estrangula. Vence a sexualidade animal, o domínio pelo sexo, a descoberta do lado sombrio do homem. "O novato...se encolhia no banco...E o desejo...de pegar no pênis do negro...sempre fora homem...temia e queria o negro...o negro fascinava...poderia dominar...". No código da prisão, vencedor e vencido se misturam; o mito do negro avantajado acentua cores e sentidos, apaziguando o vazio das vidas condenados.

O oitavo fala da manipulação de sentimentos, da busca do amor à humanidade através da fúria. "O estudante...alerta: pára, a loja é do meu pai...arrasam a farmácia do seu Neco, protestando contra o preço dos produtos no país". Equívocos trazendo miséria e desacertos.

A seguir, vida desperdiçada, velhice amarga em luta para libertar o filho torto que, na prisão, segue igual. Vazio e desamparo diante do abandono da sociedade refletem-se em cada personagem.

Um lance duplo, eivado de hipocrisia, caracteriza o próximo conto. Onde a polícia representaria o jogo honesto, revela-se que não há jogo honesto, nem tal polícia. Moral torta, se alguma moral existe na narrativa.

Gustavo, personagem da trama seguinte, criminoso ardiloso vivendo do embuste e do engodo, manipula pessoas em prol de objetivos sombrios. E, em vários momentos, nos dá a certeza de que o conhecemos mais intimamente do que o desejamos.

O conto 12 fala do duplo, do peso da pena aplicada "cadê os indícios? Teriam arrancado alguma folha do processo?", da obsessão e dos conflitos do juiz diante de sua missão, perigoso flerte com o patológico: "sentou com ar de quem ia ser assassinado...o detetive segredou...não volta mais...fora morto...". Perigoso, e em constante espreita.

No décimo terceiro, a ironia do acaso criando um assassino pela mera escolha de agir errado na hora errada.

O seguinte denuncia a lei, de novo manipulada para proteger os mais iguais. O soldado ingênuo, apoiado na norma pura, maior, por ela é asfixiado: "gente fina, soldado, hotel de luxo, abilolou-se o sargento.." E o soldado, elemento menor  na escala hierárquica,  "com base num monte de artigos, começava a cumprir oitenta meses de prisão."

E que dizer do conto a seguir? Nele, humilhação, ódio e obsessão consomem o homem comum, levando-o a buscar compensação a esmo, exilado de uma justiça - e de todo um sistema legal e político - que não o protege como devido.

O texto seguinte ratifica a impossibilidade de lutar contra os poderosos. A lição oscila entre a conivência imposta e/ou a opção de se danar. O elemento negro ressalta, duplamente explorado: por sua condição social inferior e por ser mulher.

De novo o espanto, no conto 17: "bastava o juiz se enganar e dar razão a quem não tinha". A lei agindo aquém da justiça, esta é feita pela próprias mãos.

Segue-se relato onde um Shylock moderno, reclamando seu devido crédito, é enredado por advogados desonestos e juizes incompetentes. Em sua busca obstinada da justiça através das leis dos homens, é por ela destruído.

O texto que o segue mostra a sina de um pai, burlando a lei para carregar o crime do filho, assassino deixado livre e impune.

O conto 20 fala sobre a lei imprestável "a coletividade organizada instituiu esta regra", denuncia penas incoerentes com o crime cometido - "furtei bilhões, quero os quatro anos" - que fomentam o ilícito e a hipocrisia. "Hoje, certo, V.Exa. não me apertaria a mão, sou ladrão. Mas, aqueles quatro anos cumpridos, quem sabe, Meritíssimo?".

No 21, o cumprimento da lei estanque gerando o caos. O alívio da velha propina restaurada surge como benção de luz, o cinismo reabilitado.

Segue-se o conto 22, onde o mesmo homem que mata um infeliz, sem qualquer piedade, paradoxalmente luta para salvar outro, totalmente estranho. Ironicamente, guia-o o mesmo sentimento negado ao primeiro.

No 23, a lei massacrando os pobres. Estoicismo, resignação e aceitação da (in)justiça são os sentimentos que lhes cabem, e os infelizes cumprem o papel que, por (in)justiça, lhes cabe.

Mostra-se, no conto 24, o teatro da Justiça: "Plenário. Jurados de pé, réu de pé, o juiz do lado de fora, na sua sala, remanchando para valorizar-se". Um palco lúgubre para o sistema judiciário. Desde a empáfia do juiz até a ignorância dos jurados, a cena cresce rumo ao sarcástico clímax, regada com displicência e orgulho.

No 25, a obrigação insuportável do juiz, de manter-se inalterável. Até que, em algum momento inevitável, a tensão se quebra e altera a calmaria, já irrespirável.

O seguinte relata a adaptação perfeita ao mundo real, configurada na integração com a aberração. O normal, no conto, resulta em aberração ainda maior.

No 27, o poder com rabo preso, a desonestidade geral: "há várias formas disfarçadas". Todos os indivíduos, inclusive os poderosos sem faltas, têm um preço.

Tem-se, no conto 28, que negociar com o mundo é parte do jogo. O dinheiro move tudo, inclusive a Justiça. O mundo surge como lugar onde o pobre, sem perspectivas, seu futuro conhecido de antemão, rende-se ao jogo previamente perdido.

Já no 29, a hipocrisia, exacerbada, é selada com um Amém. A reza flui de uma cartilha fria, cáustica e demoníaca, apontando a lei mortal contra o cidadão comum.

O 30 retrata o abandono infantil gerando o assassino covarde, que a autoridade fraca e o desamparo forjaram. A chance de redenção, tardia, é temida e abandonada. Não há saída para o trágico destino que a sociedade armou para suas crianças.

No seguinte, o desencanto com a cultura é explícito: "me alfabetizei e parei. Quem lê, pra que mais? Pode saber sozinho tudo o que a humanidade concluiu." Cultura resumida a sinônimo de mera vaidade. O dinheiro diferencia os homens, eleva-os acima da lei. Mostra a contradição do homem, já no topo, fascinado pelo abismo, sem perceber que, ao olhar para ele, é por ele encarado. Flerta com o monstro e se transforma em um.

No último conto bandido, o poder que tudo muda e corrompe. Ao jogar com o sistema, o jogo vira-se contra o jogador, porque o sistema tudo acomoda. Sem chance.

O livro de João Uchôa Cavalcanti Netto agride e machuca todo o tempo, expondo as vísceras podres de uma sociedade incapaz de redenção, nem mesmo através dos cultos, porém moralmente frágeis, representantes da Justiça. Ecoa, em sua gélida análise, a  "Wasteland" de T.S. Elliot. E, como no Inferno, de Dante, cada leitor (cidadão) é forçado a deixar para trás todas as esperanças.  

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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