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Shylock, resumo de debate

Judeus após Massada e a revolução de Bar Kochba: a diáspora.

Judéia passa a se chamar Palestina, por ordem de Adriano. Espalham-se pela Europa. 629 – expulsos de França. 1290 – expulsos da Inglaterra. 1306 – Felipe, o Belo, expulsa os judeus de França para não pagar a dívida que tem. 1492 – expulsos de Espanha. 1496 – expulsos de Portugal. 1655 – voltam à Inglaterra. 1789 – Revolução Francesa – dá direitos civis aos judeus. Há outras idas e vindas, durante todos os séculos. Sem contar Cruzadas (não era pecado massacrar judeus a caminho da terra santa – havia 200 famílias judias em Jerusalém quando Saladino a tomou em 1187); Inquisição, que durou de 1480 a 1821 = 341 anos de perseguição e morte; Holocausto, inominável perda de seis milhões. Voltando à Inglaterra de Shakespeare, falemos de Christopher Marlowe, autor do magistral Faustus, mas também do Judeu de Malta, que ele chama de Barrabás, o condenado trocado por Jesus Cristo para viver. A pecha do sangue de Cristo já reside em seu nome. Barrabás reúne todos os pecados e vícios: é ambicioso, mesquinho, confessa no texto que envenena poços e com isso aumenta o número de enterros. Marlowe obtém sucesso, pois a platéia adora encontrar em Barrabás o resumo de todas as culpas (falta de higiene e de cuidado faziam sumir crianças – como ainda hoje acontece), todo o despeito e inveja (era época de descobrimentos e fortunas sendo feitas). Barrabás é aliado dos mouros (ambos circuncisados, ambos inimigos dos cristãos, ele diz) inflamando a audiência. Barrabás ataca a religiosidade das freiras e dos padres, sugerindo sexo entre eles, levantando a platéia contra si. Renega a filha, trama mortes. Assim, sua morte num caldeirão fervente é recebida com euforia. Este é o judeu de Marlowe, autor egresso de universidade famosa, homossexual que rejeita a virgindade de Maria e é acusado de heresia. Morreu assassinado, ainda jovem, deixando legado de peças fortes, complexas, marcadas pelo ódio e pelo sangue que marcaram sua vida. William Shakespeare é contemporâneo de Marlowe. Estamos no Renascimento, mas o autor que frequentou a universidade nada tem do Renascimento que pretendia revigorar a alma humana. Shakespeare, ao contrário, não foi à universidade. Lê e relê a Bíblia, Virgílio, Horácio, os latinos. É Johannes factótum, Wiliam Shakescene. Suas peças sacodem o palco, e ele é um faz tudo, desde escrever, ser contra-regra, dirigir, etc. Seus personagens são pessoas humanas, não marionetes como os de Marlowe. O humanismo é forte traço em Shakespeare. Nos sonetos de Shakespeare já se vê a alma nova. Contrastando com as idéias medievais, seu soneto The dark Lady fala de uma mulher cujos olhos não brilham como o sol; cujos lábios estão longe de ser rubros como coral; se neve é branca, seu peito é escuro; se cabelos são feito de arame, então sim, ela tem arame negro na cabeça; rosas existem rosas e adamascadas, mas não em sua face; alguns perfumes são mais agradáveis do que o hálito que dela emana; adorava ouvi-la, mas música tinha um som bem mais agradável; e quando anda, não é uma deusa sobre nuvens, mas no chão. E apesar de tudo, seu amor era mais raro e precioso do que qualquer um ousasse atingir com falsas comparações. Opõe-se, então, ao mito da mulher virgem, deusa, loira, de pele alva, voz musical, cheirando a flor. A musa de Shakespeare é uma mulher real. No Mercador de Veneza, Shylock é um personagem que deve ser denegrido, mas Shakespeare não esquece seu lado humano. Na verdade, este sobressai diante do outro. Shakespeare é mestre das metáforas. As que usa em suas peças são novas, e incluem todos os assuntos, desde bíblicos até o dia a dia. Não havia uma comunidade judaica na Inglaterra, mas isto não significa que não havia judeus na Inglaterra. Havia, sim, porém não como uma comunidade oficial. Shakespeare pertence à Inglaterra gloriosa de Elizabeth I, rainha que teve um médico judeu. Aliás, sempre que havia expulsão, pensava-se na possibilidade de excluir os médicos do decreto, pois eram respeitados e tinham a nobreza entre seus pacientes. A rinha teve seu médico judeu. Numa tentativa de envenená-la, intrigas culparam seu médico, que terminou sendo morto. Entretanto, demonstrando que não o considerava culpado, manteve pensão para a família de Roderigo Lopez, o médico acusado, condenado e morto, provavelmente inocente, haja vista a atitude de Elizabeth I. O Mercador de Veneza resulta da junção de três histórias: a da escolha do noivo através das caixas de ouro, prata e chumbo; a da Lei das Doze Tábuas; e de uma crônica sobre um judeu e o mito da usura. Antonio, o mercador, diz-se solitário, um ser apartado da sociedade. Diz a crítica que sua amizade por Bassanio é maior do que parece. Os diálogos assim indicam. Antonio diz que o mundo é um “palco onde cada homem faz sua parte, e a que lhe cabe é triste...” Bassanio, amado por Antonio, tem sérios problemas financeiros e vê como solução o casamento com Portia, “uma jovem herdeira” que vai escolher noivo através das 3 caixas. Para ir até ala, precisa de dinheiro, e Antonio, que odeia e maltrata e humilha Shylock, vai a ele por amor ao amigo. E o convida a jantar. Era proibido, há séculos, sentar com judeus à mesa – a Igreja assim decretara, mas é Shylock quem diz: “...Sim, para cheirar porco...Posso comprar de você, vender para você, mas não comerei com você, nem rezarei com você (alusão à conversão)...Parece que o desdém parte de Shylock, quando era o oposto. Aliás, no filme que Al Pacino estrelou, é claro o desdém de Antonio e dos outros cristãos por Shylock. Aparentemente, pois, a tensão com o empréstimo contribui para concretizar a lenda do judeu que o imaginário popular havia estabelecido. Aliás, Shylock diz odiar Antonio porque ele, como cristão, empresta dinheiro sem juros, quando era fato conhecido que cristãos banqueiros haviam exagerado tanto nos juros que os negócios bancários voltaram às mãos dos judeus. De fato, funcionava assim: quando o negócio estava indo bem, tiravam-no das mãos dos judeus, através da expulsão ou simplesmente repassando-os para os cristãos. E depois se fazia o caminho inverso.

NO RECIFE DO SÉCULO XVII, por exemplo, HAVIA MANIFESTAÇÃO CONTRA COMERCIANTES CRISTÃOS-NOVOS PORQUE ESTES ATRAPALHAVAM SEUS NEGÓCIOS, COBRANDO PREÇOS ABAIXO DOS PRATICADOS PELOS CRISTÃOS. VALE LEMBRAR CONCORRÊNCIA DESLEAL, FILME ITALIANO SOBRE OS ANOS 1940, de mesmo teor. OU ALGO MAIS PRÓXIMO, CASAS BAHIA, IMBATÍVEL NO RAMO, QUE FATURA TRES VEZES MAIS QUE SEGUNDO NO RAMO, TAMBÉM JUDEU.

O fato é que, ao proibirem os judeus de ter sua terra, os cristãos criaram um povo de idéias e livros: médicos e filósofos. Ao proibir suas atividades comuns e expulsá-los, criaram o comerciante. Voltando a Shylock, ele não gosta de música e por isso não se deve confiar nele. Mais tarde, dizem que não se pode confiar num homem que não gosta de música. Mas a música que Shylock desgosta é a profana. A reza da sinagoga é toda cantada e Shylock é religioso. O pacto do pagamento no prazo ou na carne é derivado da Lei das Doze Tábuas. Não era usado pelos judeus, mas sim pelos ingleses.

De fato, cortava-se o nariz, ou dedo, ou mão, ou orelha, de quem falasse da rainha ou fosse suspeito de crimes. Os ingleses estavam a par do costume. Colocar a peça na Itália afastava o perigo para o autor, mas o hábito estava lá, podia ser reconhecido. O empregado de Shylock, ao ver chegar o pai cego, após um jogo de erros, diz: ....”Sábio é o homem que conhece seu próprio filho”. Nem seu pai nem Shylock conhecem o filho/a que tem. Launcelot, o empregado de Shylock diz que sua consciência o aconselha a ficar com seu amo, mas o diabo lhe dá conselhos mais agradáveis.” Logo após dizer a Shylock que passa fome em sua casa e vai deixá-lo pelo bom cristão Bassanio (que confessara ter dilapidado sua fortuna), Shylock lhe diz que lá não comerá com gosto como em sua casa, nem dormirá de se enroscar e roncar, nem ganhará roupas apropriadas. Shakespeare mostra, na fala de Shylock , o que ele sabia, bem como muitos outros observadores, que escravos e servos preferiam casas de judeus pelos tratos e até pelos dias de folga aumentados: sábados (judaicos) e domingos (cristãos).

Se Shylock chora seu dinheiro roubado pela filha, é com emoção que reage ao saber que a filha negociara um anel por um macaco. Anel que não trocaria por uma floresta cheia de símios, pois lhe fora dado pela falecida esposa Lea. A lealdade de Shylock a um anel originado do amor vai contrastar com a leviandade com que o anel de Portia e o de Nerissa são tratados por Bassanio e por Gratiano. Não há dúvida de que fica enfatizada a atitude correta e honesta de Shylock, por vias tortas.

Por outro lado, Shakespeare faz uma personagem zombar do desespero de Shylock ao mesmo tempo em que coloca os personagens a se solidarizarem com a perda financeira de Antonio. Analisa, assim, a intolerância e a indiferença da sociedade. Na escolha das caixas, o príncipe do Marrocos evita a caixa de chumbo e diz: “...Homens que apostam tudo, o fazem em troca de grandes vantagens”. Exatamente o que faz Bassanio. Shakespeare também fala do mito do judeu diabo, quando Shylock entra e os personagens se persignam e dizem amém...”para que o diabo não atravesse minha prece, pois aí vem ele na pele de um judeu.” Quando Shylock vai ao encontro de Tubal, um amigo, dois personagens conversam e dizem: “Aí vem mais um da tribo; se um terceiro aparecer, o diabo aparecerá em pessoa.” Shylock chora a perda de “meu próprio sangue, minha carne se rebelando contra mim”. Ao saber da perda de Antonio, Shylock diz que ali também teve um mau negócio.

No entanto, a perda da filha, da chance de continuidade da prole, a traição da carne e sangue, sua fuga com um cristão levam Shylock ao desespero e ele diz o célebre monólogo da peça, os versos que provam o humanismo e o sentimento de Shakespeare diante da tragédia judia. Ele me desgraçou, levou-me meio milhão, riu de minhas perdas, zombou de meus ganhos, escarneceu de minha gente, torceu meus pedidos, arrefeceu meu amigos, agigantou meus inimigos: e quais são suas razões? Eu sou um judeu.Um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições e paixões? Não somos alimentados com a mesma comida, feridos com as mesmas armas, sujeitos às mesmas doenças, curados do mesmo modo, aquecidos e esfriados pelo mesmo inverno e verão, assim como os cristãos? Se nos ferem, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E se nos enganam, não devemos nos vingar? Se somos como vocês em todo o resto, também nos assemelharemos nestes aspectos. Se um judeu engana um cristão, o que este buscará? Vingança. Se um cristão engana um judeu, o que deve este fazer, guiado pelo exemplo cristão? É claro, obter a mesma vingança. A vilania que nos ensinam eu a executarei, e não tenham dúvidas, eu aprimorarei suas instruções. Daí para a frente, as humilhações acumuladas se impõem e Shylock ameaça, quando Antonio lhe pede calma: “ Você me chamou de cão antes que eu lhe desse causa...Pois cuidado com minhas presas”.

Jéssica, longe dali, diz-se feliz, pois fora salva pelo marido que a fez cristã. A idéia de que o cristianismo salvava era praticada e colocada por Shakespeare, sempre lembrando que a ironia é forte traço em sua obra. Na cena do julgamento de Antonio, quando Portia surge travestida de advogado, um jogo de palavras levará ao desenlace conhecido. Por exemplo, entre Bassanio e Shylock: B- OS HOMENS MATAM O QUE NÃO AMAM? S -ODEIAM OS HOMENS O QUE NÃO MATAM? B- NEM TODA OFENSA É FRUTO DO ÓDIO. S – VOCÊ SE DEIXARIA PICAR DUAS VEZES POR UMA COBRA? Ou entre o duque e Shylock: D – Como espera receber misericórdia, sem oferecer nenhuma? S – Que julgamento devo temer, se não cometi erro? Para criticar as leis, manipuladas ao sabor dos julgadores, o processo vira e Shylock terá direito apenas ao acordado, ou seja, um pedaço de carne do réu. Como o acordo não fala em sangue, nenhuma gota deverá ser extraída. Pronto: uma sentença impossível de se cumprida. Apenas por um judeu, sabido das punições havidas no gênero para quem atingisse a realeza.

Shylock perde tudo, inclusive casa e bens, e é condenado à conversão forçada. Exaurido, vencido, ele pede para sair. É, de novo, absurdamente pária. O duque manda oficiais em busca da casa do judeu por duas vezes, talvez uma alusão à falta de judeus na cidade, pois manda buscarem o endereço. Sendo Shylock conhecido, seu endereço também o seria. A peça parte para o final, um final de comédia, em Belmont, onde se reúnem os casais jovens: Portia/Bassanio, Nerissa/Gratiano, Jessica/Lorenzo. Antonio está lá, mas manifesta sua inquietude, seu sentimento de ser deslocado, ecoando Shylock. E Jessica também ecoa o pai, dizendo-se infeliz ao som de música doce. No filme, ela se afasta para a beira de um lago, onde um pescador (simbólico) passa ao largo.

E ela, pensativa, gira um anel que tem no dedo. Impossível deixar de lembrar o anel de Lea. Impossível deixar de pensar que toda peça de Shakespeare é lida nas entrelinhas. No Mercador de Veneza, mais do que nunca devemos ler nas entrelinhas, pela complexidade e beleza do texto. Lembremos que Shylock, através dos séculos, foi interpretado como vilão, como cavalheiro, como um ser humano, de várias maneiras, dependendo do país e do regime que o governa.

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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