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Um dia perfeito

Pedrinho, nove anos recém completados, acordou sem preguiça, levantou antes que a mãe chamasse, escovou os dentes, tomou banho, passou a escova na cabeça quase raspada, bebeu café com leite e comeu pão com manteiga, depois pegou a mochila com seu material escolar e desceu o morro Dona Marta em direção à escola particular onde estudava. 

Graças a um projeto unindo empresários,políticos e parte da sociedade, todas as escolas privadas de cada bairro davam bolsa de estudos completas para 10  meninos em cada morro das redondezas. Uma prova era exigida do candidato, porém observando mais o potencial do que outra coisa. E potencial ele tinha, todos sempre diziam. Assim, estudara com vontade a matéria necessária, até porque seu maior desejo na vida se resumia a estudar. Que criança deseja outra coisa? respondia à mãe quando esta insinuava que parecia cansado e devia parar de lutar contra o destino. Ao contrário, o desânimo dela mais renovava os esforços do menino. Bem, já estava na mesma escola havia três anos. No início fora olhado com curiosidade pelas crianças brancas e ricas, mas logo ganhou amigos. Devorava os livros, cheio de prazer, freqüentava a biblioteca do colégio religiosamente, e mantinha notas de invejar qualquer um. Tinha mais: os passeios se transformavam em festas. Museus, teatro infantil com direito a debate, jardim botânico, tudo acompanhado de professor explicando as coisas, com direito a lanche e ônibus escolar levando e trazendo. Não havia menino mais feliz do que ele, com certeza, e pela vida que levava agradecia todos os dias. A mãe não reclamava mais. Entendia que um novo futuro o esperava com o ingresso naquela escola de alto nível, onde as aulas eram desafios que vencia com garra e gosto. E Pedrinho ainda se divertia, dando aulas para os meninos menores no morro, preparando-os para quando chegasse a vez deles tentarem suas bolsas de estudos, que ele chamava bolsa felicidade. Recebera tudo de graça, desde o material escolar até o lanche diário. E só lhe pediam que mantivesse notas boas e fosse um bom garoto. Mas se era com a alma que estudava, se vivia tão feliz, que outra coisa poderia fazer além de se sair bem nas provas?  A bolsa de estudo o acompanharia até o vestibular e aí, sim, tentaria a universidade em igualdade de condições com seus colegas. No Dona Marta mais de 100 meninos tiveram a mesma sorte, preenchendo as benditas vagas  nos melhores colégios do bairro e recebendo, como ele, as regalias do bom estudo. Nem tinha pressa do futuro chegar. Saboreava cada momento com todo o seu coração. O futuro o aguardava, e antevia chance e muita dignidade. Cumprimentou o inspetor, entregou a caderneta e entrou no prédio, um largo sorriso branco iluminando seu rosto negro. Pedrinho, nove anos recém completados, acordou sem preguiça, piscou os olhos e percebeu que havia sonhado. Levantou antes que a mãe o chamasse, pegou a caixa de engraxate e saiu, não sem pedir aos céus que, em breve, seu sonho se tornasse realidade.

Miriam Halfim escreve contos e,
após estudar com João Bethencourt
e Renato José Pécora, dramaturgia.

Agenda

  • 04/12: Ecos da Inquisição

    A peça está em cartaz no CCJF: Avenida Rio Branco 241, Cinelândia, RJ. De sexta a domingo às 19h. Desde 4 de Dezembro até 07 de Fevereiro de 2010. O espetáculo tem o patrocínio da Eletrobrás e a direção do premiado Moacir Chaves. 

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